Código de Santiago
Porque nós seremos sempre o segredo mais bem guardado do mundo.
a vergonha serve-se fria
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'Shame' o filme de Steve McQueen de que todos falam, protagonizado de forma assombrosa por Michael Fassbender, tem uma cena que é a minha favorita, a mais comovente de todas, onde Brandon (que eu insisto em chamar David, não sei porquê) aparece mais nu que no início do filme quando vai fazer xixi. É a cena em que David, desculpem Brandon, vai jantar com a única mulher com quem não consegue ter sexo.
Em nenhuma outra tive de conter a lágrima que levava preparada pelo sim pelo não. É aí que percebemos o quão bom homem é, e o quão bom homem poderia ser. Declina a água engarrafada, escolhe o borrego sem convicção, aceita a sugestão do vinho sem ver o preço ou a casta, ri puerilmente, atura a sarna servil do empregado com uma gentileza apenas própria de quem tem bom coração. Está ali a essência de Brandon, viciado em sexo em todas as horas que ele faz por vagar, entre a masturbação de hora a hora, e um disco rígido cheio de vídeos e imagens de pornografia com capacidade para penetrar todos os orifícios da alma mais inocente.
Quando descia no elevador para o estacionamento das Amoreiras, vinham duas miúdas de pouco mais de 18 anos a dizer que o filme metia-lhes nojo. O cinema também é isto; a cada idade, experiência e mundo interno cabe o choque, o murro no estômago ou a moral da história que lhe convém.
Para quem sabe que as almas penam e que o martírio a que se entregam (no caso do Brandon é o vício em sexo) nem sempre mimetizam a sua verdadeira essência, sabe que o maior nojo de vida é quando o que somos não consegue dominar o que também somos. E somos tanta coisa. Camadas e camadas, como cebolas. Brandon é uma cebola difícil, que nem "a mulher com ele não consegue ter sexo" consegue descascar.
Nojo, as pessoas tendem a esquecer-se, significa tristeza e luto. Sim, eu também senti nojo.
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até que o sexo nos separe
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princesas de bairro
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mostra-me que me amas, mas não me digas
Esta é uma polaroid antiga. Tirei-a há uns dois anos durante uma palestra proferida pelo Francisco Varatojo no Instituto Macrobiótico de Portugal, no Chiado, em Lisboa. Foi uma daquelas coisas "de grátis", como ouvi uma vez um senhor dizer, e para as quais a minha amiga G., que tem uma agenda cultural de borlas sempre à mão, costuma arrastar-me.
O Varatojo é um tipo com muita piada. Embora tenho umas teorias estranhas sobre a alimentação que não me convêm nada, como não devermos comer tomate (logo eu que sou defensora da dieta mediterrânica), acerta em muitas outras que têm a ver com o que ingerimos mentalmente. E a polaroid de que falo agora, e só esta semana foi revelada com todas as cores, tem a ver com o poder masculino e o poder feminino.
Dizia o Varatojo, e toda a palestra, que versava sobre relacionamentos, estava baseada nesta premissa, que a principal causa de as relações (heterosexuas, ele só falou nessas) não darem certo prende-se com o facto de os papéis, as características e as idiossincrasias de cada sexo terem-se invertido, confundido e baralhado. Os homens começaram a assumir lados femininos que não é suposto e as mulheres lados masculinos que também não é suposto. Na altura, aquela ideia misturada com o ying e o yang, e mais não sei quê, cheirou-me a comida macrobiótica, saudável e tal, mas pouco apaladada. Para não dizer que, com o mau feitio gustativo que me é característico, senti um picantezinho a machismo. Pois o Varatojo (não confundir com o senhor que nos falava de crimes e investigações) tinha razão.
Não tem a ver com tarefas domésticas; com quem dá banho aos filhos, cozinha ou arranja o candeeiro da sala... As tarefas marianas não têm sexo, dependem da aptidão, do gosto, do bom senso e do companheirismo e respeito; e aqui pode ou não haver lugar ao machismo e ao feminismo, ou "femischismo", ou "machisfemismo", que sei eu, e da educação que cada um trouxe de casa.
Tem a referida premissa a ver com aquilo que distingue o homem da mulher, a energia masculina da energia feminina, com aquilo que desde o início dos tempos nos prometeu uma guerra dos sexos, que apimenta as relações e dá graça ao facto de continuarmos a embrulharmo-nos com o sexo oposto. Somos iguais em direitos e deveres, mas não somos iguais em interesses, actos, contrições, omissões, desejos, manifestações da nossa sexualidade e visões do mundo e da realidade. Não queria aqui falar da famosa metáfora da caça e do caçador... mas o problema é que não me ocorre mais nenhuma. A mulher, sendo caça (desculpem lá a metáfora outra vez), sabe que acaba sempre por decidir os condimentos todos do cozinhado e até o grau de teperatura no forno. Então porque não deixar-se ser caçada? (suspeito que vão chover insultos)
Algures, nos últimos tempos, começámos a esquecer o que nos torna únicos. Isso gerou a confusão. As mulheres estão habituadas a viver em confusão, desde que se levantam até que se deitam, porque isso só cria mais oportunidades para fazerem o que sabem fazer melhor do que ninguém: organizar, encaixar em timelines e grelhas de expectativas calculadas à lupa das suas aspirações. Os homens não. Perdem-se e refugiam-se em tarefas unidisciplinares, uma coisa de cada vez... para não gerar mais confusão. No meio disto tudo, na lista de prioridades, o amor acaba tantas e tantas vezes por ficar para o fim. Os homens, diz-se, e dizem alguns deles também, andam confusos, com medo e desacreditados no amor. As mulheres, diz-se, e dizem algumas delas também, andam confusas, com medo e a fingirem-se desacreditadas no amor.
Há um exemplo ou uma tentativa de explicação, em particular, que quero deixar impressa nesta polaroid, e que talvez seja transversal a isto: as mulheres são muito boas e muito rápidas. Estão à frente ainda antes da puberdade, sempre antes dos rapazes, e têm tido dificuldade em domesticar o seu lado controlador e super organizado, enfermo da maravilhosa síndrome multitask.
Nas relações é preciso que as mulheres dêem espaço aos homens para escolher. Para escolher como amam, como se dedicam, como se organizam, como se compreendem. É preciso devolver-lhes o poder de decisão. Não que decidam pelas mulheres ou que sequer se atrevam a decidir sobre o que a mulher deve ou não fazer, mas sobre o que eles próprios querem e como querem fazer. As mulheres, custa-me admitir, de tão fantásticas e completas, têm vindo progressivamente a castrar o homem, naquilo que ele, e todo o ser humano, tem de mais rico e inalienável - o poder de decidir sobre a sua vida. O poder, inclusive, de perder-se e encontrar-se como e quando quiser.
Chega de preocupações excessivas sobre o seu bem estar, chega de confundir amizade e companheirismo com maternalidade desviada (só os filhos é que precisam disso, ok?). Basta de desejarem que os homens se ponham a partilhar tudo e tudo, e de fazer psicanálise no sofá lá de casa (quando muito, dêem-lhes o contacto de um bom psicólogo, mas depois não andem a perguntar de cinco em cinco minutos se ele já marcou consulta). Párem de andar preocupadas com o "era tão bom se", e o "porque é que ele não...", vou dizer-lhe. Shiu! Não digam. Os 'se', os 'não' e os 'sim' são lá com eles.
Dêem-lhes espaço para recuperar a sua masculinidade. Enquanto não perceberem isto das duas uma: ou têm homens banana ou ratos: Os primeiros são uma seca... os segundos também ninguém quer; saltam do navio assim que ele começa a zarpar para a Ilha dos Amores. E até o romântico do Camões, como sabemos, naufragou.
Post publicado no blog Polaroid
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aeróbica mental
A senhora que lançou a moda da aeróbica fala aqui de um exercício sobre o passado que devíamos praticar todos os dias. A vida e o envelhecimento seriam mais fáceis, e não consta que provoque lesões musculares. Pelo contrário. Vale a pena ouvir a Jane Fonda sobre as escolhas que podemos fazer e aforma como podemos mandar na nossa mente e viver o presente sem carregar os tijolos de construções passadas que ameaçam tantas vezes deixar-nos em ruínas.
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somos o que cheiramos ou a estória do perfume e do javali
"Sais à tua tia, que até as couves na praça cheirava". Palavra de mãe. Realmente dou por mim no supermercado a cheirar as couves, as peras, o pão e até os pacotes de bolachas, indiferente às pessoas que olham para mim como uma junkie em recuperação que tem de meter qualquer coisa no nariz.
Foi a cheirar que primeiro me senti e senti o mundo. Foi assim que me apaixonei por Nestum de Arroz, por almôndegas, pelo início das aulas (cadernos novos), por arroz cozido, por esparguete cozido (eu sei que é estranho), pelo papel de lustro, pelo papel das revistas, por batons, por maçãs e pêssegos, e tanta coisa. Também foi assim que fugi desde cedo das praças e dos mercados, das peixarias, do papel de jornal (cheguei a colocar um mola no nariz), do peixe frito, do fumo das lareiras, das piscinas, das permanentes, e tantas coisas.
Não sou a única dependente. O mundo está cheio de pessoas que se guiam pelo cheiro e que até às imagens, sons e texturas, atribuem um cheiro. Eu, digo-vos, asseguro-vos, vejo cheiros. O cheiro tem forma, tem cor, tem conceitos, tem valores, tem desejos.
Eu penso com o nariz. De tal forma que às vezes os meus olhos e os outros três sentidos trabalham para ele, sem que ele tenha de cheirar.
Exemplo da minha materialização do cheiro: Já comprei perfumes sem cheirá-los primeiro. Ahhh, os publicitários vão adorar esta. Seduzi-me por aromas que estão impressos. Durante um ano, designadamente, usei o 'Romance' da Ralph Lauren porque me encantei pelo cheiro que o anúncio com a Scarlett Johansson emanava. O cor de rosa, o ar feliz da rapariga, o nome romance, o ambiente (acho que cheirava a Paris), tudo aquilo me disse: Isto cheira bem. Isto fica bem na minha pele. Isto é o meu cheiro agora. E foi. Não sei se a publicidade era boa, se eu sou boa a imaginar cheiros ou se sou simplesmente doida.
Esta fama de "cheirinhas" tem-me dado jeito. Acaba por ser um dos meus 300 sextos sentidos. Já me valeu, por exemplo, estar a jantar um belo de um bife numa taberna das terras de contrabandistas enquanto os meus amigos agoniavam no hospital da Guarda com uma intoxicação alimentar devido a um javali que estaria já na sua sétima reencarnação no talho da terra. Aconteceu tudo num devaneio de juventude católica progressista e escuteirista moderna, em que decidimos subir o Rio Côa (sim, é um rio que sobe), e no fim do qual, na mítica aldeia de Quadrazais, e numa tentativa falhada de repasto gaulês, o meu nariz no ar suspeitou que a festa ia acabar mal. "És muita esquisita, isto está óptimo". Sim, sim. E lá fui eu depois, a esquisita, providenciar-lhes transporte para a enfermaria junto de uns romanos simpáticos, que depois me levaram a comer o bife. Agora me lembro que houve mais dois companheiros que escaparam aos vómitos e comigo estiveram a conviver com o inimigo. Nunca esquecerei o cheiro a que soube esse jantar.
Moral da história: Compro cheiros sem os cheirar. Cheiro tudo o que compro e toco. E andei de mochila às costas. Não neguem nunca um cheiro que desconhecem. E nunca duvidem do poder de imaginar cheiros. Palavra de escuteira.
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antes da estreia de "Florbela", o novo filme de Vicente Alves do Ó...
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Hoje à noite na Avenida
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faço cultura por fora
"Faço cultura por fora". Tenho um crachá com este statement que o comprova e amanhã até vou levá-lo. Aliás, estou a pensar levá-lo para todas as sessões do Shortcutz Lisboa. A culpa desta frase é da J. Até estou a pensar escrever isto quando tenho de preencher naqueles impressos estatais e fichas de cartões de cliente das lojas o espaço destinado à profissão. Convenhamos, dizer funcionária pública não me apetece. É foleiro. Já não é verdade (a última legislação diz que sou Trabalhadora em Funções Públicas). E é vago (pode ir desde cantoneiro a arquitecto, ou director municipal). Bah. Agora a minha profissão para os efeitos tidos por mais convenientes vai ser: Faço cultura por fora. (por fora do emprego). Às vezes ponho Comunicação ou RP, mas fazer cultura por fora é muito mais preciso nalguns casos. E a cultura é tanta coisa. Até pode ser fazer a cultura da amizade. Ou do vinho. Ou de coisas sérias e bonitas como o cinema. E é isto o Shortcutz Lisboa. Hoje, a partir das 21h30, e a convite da Volkswagen Portugal, vamos estar no Espaço Pop Up! da Avenida da Liberdade, n.º 159, a mostrar curtas metragens que fizeram sucesso nas nossas sessões do Bicaense. São daquelas curtas que levaram os raminhos como em Cannes. São boas. E, como diz o slogam, "Small is great". As curtas e os carros. Quanto ao resto é lá com cada um.
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que mais me irá acontecer?
Cada vez que se aproxima a ideia de um festival de Verão eu tremo. Tremo de emoção e histeria adolescente porque gosto de festivais e de concertos e de música e de gente que se junta porque gosta de música. E também gosto daqueles que lá vão e nunca vêem um concerto. Arrastam-se pelos stands e pelas barracas de comida, ou simplesmente estão ali, deitados a pensar na vida (?) e a comer pó. Nunca percebi essa tribo. Mas gosto de saber que existem; reconciliam-me com a estupidez a que humanamente todos temos direito desde que não façamos mal a ninguém.
Tremo de medo, porque cada vez que vou a um festival, e tenho ido a alguns, acontece, ou está já a acontecer em simultâneo, qualquer coisa de diferente e marcante na minha vida. Juro. Tem acontecido coincidirem os festivais com rupturas, começos, avanços, recuos, novas oportunidades, reencontros, palpitações, quebras de tensão... eu sei lá. É sempre assim. E acabam os festivais por constituirem bandas sonoras que ficam gravadas, para o bem e para o mal, na minha timeline.
Espero que este ano o Optimus Alive!, com este cartaz, que é bem bom, me dê direito a levar uma trilha sonora tão jeitosa quanto as experiências que eu espero estar a viver na altura. E já agora, que eu esteja já um bocadinho bronzeada, que fica sempre melhor nas fotos.





